Sabotage: O Eterno Maestro do Canão

Mais de uma década após sua morte, Sabotage ainda é considerado um dos maiores rappers da história do Brasil.

sabotage

Sabotage, Sabota, Maestro do Canão, Maurinho ou Mauro Mateus dos Santos foi um dos maiores nomes do Rap Nacional de todos os tempos. Além de Rapper, também era compositor e ator. Nasceu em 1973 e foi cruelmente assinado no ano de 2003. Antes de se envolver com o Rap, Sabota acabou entrando pro mundo do crime e tráfego, mas na música achou sua razão pra correr pelo certo.

Sabotage fez parcerias com grandes nomes do Rap Nacional, como RZO e SP Funk, lançou um único álbum em vida, denominado “O Rap é Compromisso” e, neste ano de 2016, lançou um álbum póstumo, após 13 anos de sua morte, onde estão diversas canções criadas semanas antes do assassinato do rapper.

Por que o nome Sabotage? O próprio Maurinho explicou à Carta Capital em 2002: “Sabotagem é o ato de sabotar. Já Sabotage, é o cara que pratica a Sabotagem“.

Como ator, Sabota fez parte de dois filmes: “O invasor”, no qual além de representar deu aulas de “malandragem” ao ator Paulo Miklos e o clássico “Carandiru”.

Vida social

Durante a adolescência, Mauro foi interno da antiga FEBEM (atual Fundação Casa) e traficante na Zona Sul de São Paulo. Com a convivência junto ao crime na favela do Canão, ele acabou sendo indiciado duas vezes em 1995, uma por porte ilegal de arma, outra por tráfico de drogas. No final de 1998, mudou-se para o complexo Vila da Paz, onde, segundo a polícia, montou uma boca de fumo com o colega Durval Xavier dos Santos, o Binho. O problema era que já existia nas proximidades do local outro ponto de tráfico, desencadeando uma guerra entre as facções, acirrada após os dois assassinarem Euclides Menzes Pessoa, chefe da facção rival, em 1999. Após a morte de Euclides, Sirlei Menezes da Silva assumiu o grupo e indicou Nivaldo Pereira da Silva, conhecido como Caçapa, como segundo na hierarquia da quadrilha. No ano seguinte, Sabotage se mudou para a favela do Boqueirão com o intuito de fugir da guerra. Binho continuou, tendo sido preso em 2002, mas em 14 de outubro do mesmo ano foi morto no Cadeião de Pinheiros 3 em um acerto de contas. E como suposta vingança a isto, Sabotage teria executado Denivaldo Alves da Silva, conhecido como Vadão, que era segurança de Sirlei, em 9 de janeiro de 2003. Em outra represália, 15 dias depois, Sirlei, acompanhado de Bocão e o irmão de Vadão, assassinaram Sabotage. Um mês após o crime, Bocão foi morto.

Quando era menor se via naquela música “O Meu Guri”, de Chico Buarque e se imaginava cantando. Em 1985, ele escreveu uma música e ensaiou, mas só pra ele mesmo. E usava o solo de uma música do Leo Jaime, pra cantar a sua rima em cima. Ouvia Afrika Bambaataa, Barry White. Dentre todos esses artistas ele se identificou muito com Barry White porque, como ele, Sabotage também perdeu seu irmão para o crime. Desde pequeno tinha mania de andar com um caderninho pra escrever música. As pessoas diziam: “Meu, você é louco! Vai puxar uma carroça, pegar um papelão, jornal, levar um dinheiro pra casa.” E depois de ter sido reconhecido como rapper, elas se desculpavam: “Meu, eu não devia ter te falado aquilo.” Sabotage sempre fez rimas, mas ele nunca se revelava musicalmente pra ninguém. Aí em 88, 89, começou a se inscrever em concursos de rap. Num deles, no salão Zimbabwe, conheceu Mano Brown e o Ice Blue, ambos do Racionais MC’s, que ficaram principalmente impressionados com performance dele. Nesses concursos você não podia ser muito contundente nas letras, mas na sua apresentação, Sabotage cantava uma música totalmente fora dos padrões do concurso, chamada “Na City”. E a galera não acreditava que aquele moleque tinha feito a música. E foi com o grupo RZO (Rapaziada Zona Oeste), que, aliás, é conhecido por revelar talentos para o público fora do rap, Negra Li, por exemplo, que Sabotage viu seu trabalho repercutir no rap nacional especialmente após a gravação de várias músicas e vídeo clipes, bem como a apresentação destes em shows. Na sequência, Sabotage gravou seu primeiro e único disco solo, intitulado “Rap é Compromisso”, gravado pelo selo Cosa Nostra, o mesmo que lançou o disco “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MC’s.

O lançamento do seu primeiro álbum e as participações em shows, sobretudo nos do RZO, renderam ao rapper o convite para atuar em filmes do cinema nacional e, com isso, ter seu trabalho apreciado e reconhecido por um público ainda maior. Ao todo, foram dois os filmes em que Sabotage fez atuações: “O invasor”, de Beto Brant, e “Carandiru”, de Hector Babenco. No filme “O invasor”, Sabotage fez parte da equipe do filme desempenhando três funções distintas. Participou da trilha sonora com cinco músicas (sendo três inéditas), serviu de consultor de “cultura da periferia” para moldar o personagem Anísio, interpretado pelo titã Paulo Miklos, e ainda por cima atuou no filme, interpretando ele mesmo, em uma cômica cena em que o personagem Anísio o apresenta para seus clientes “pedindo” um dinheiro para ele gravar seu CD. Já no filme “Carandiru”, ele encarnou o personagem Fuinha e gravou uma das músicas da trilha sonora. Fez várias participações como na música “Dorobo” do BNegão; “Nem Tudo está Perdido” do Posse Mente Zulu; com Rappin’ Hood; “Black Steel In the Hour of Chaos” com a banda Sepultura; com Helião, Sandrão, Negra Li, Negro Útil, KL Jay em Piri-Pac; com Jacksom, Trilha Sonora do Gueto e Z’África Brasil em “Giria Criminal”; e com Charlie Brown Jr. em “A Banca”, “Marginal Alado” e “Cantando pro Santo”. Um álbum póstumo está para ser lançado em 2010.

Carreira no Cinema

O músico fez sua estréia cinematográfica em O Invasor, do diretor Beto Brant. “Ele viu um vídeo em que eu cantava com o grupo RZO. E ele pensou ‘esse cara é louco'”. Mas a insanidade pareceu lógica para o diretor de Ação Entre Amigos e Os Matadores, que convocou Sabotage para uma entrevista. Durante a conversa, Brant apresentou o músico a Paulo Miklos, cantor do Titãs que encarnou Anísio, o protagonista de O Invasor. “Eu não conseguia parar de rir da cara dele!”, diz Sabotage. Apesar da descontração, o rapper fez questão de palpitar no roteiro da produção, apontando erros em relação à vida na periferia. Acabou consultor técnico e “treinador” de Miklos na área de fala e gírias. O roteiro da fita foi escrito por Brant e Renato Ciasca em parceria com o autor do livro O Invasor, Marçal Aquino. Para Sabotage, Aquino reflete com perfeição o dia-a-dia da periferia. “Ele não esconde nada, eu acho isso muito bom. Eu li aquele livro dele, o Faroestes e é veridicão. Aquela placa com os tiros na capa…”, contou, lembrando que o escritor é também uma inspiração. “Eu quero chegar à idade dele do jeito que ele é. Eu chamo ele de garotão. Ele é ligado, comenta as coisas que viu. Por isso faz os livros daquele jeito.”

O cantor, agora convertido a ator, passou a integrar o meio do cinema. Durante as filmagens de O Invasor, Brant teve a prova da influência que o rapper tem na periferia. “O Beto me falou: ‘Sabota, aqui no mesmo lugar onde nós fizemos este filme, já me levaram todo o equipamento antes’. Porque é assim: a periferia sabe quem está explorando ela.” Hector Babenco – diretor de Carandiru (baseado no livro de Dráuzio Varella, Estação Carandiru) veio a conhecer Sabotage durante as filmagens de O Invasor, o diretor comentou com Brant sobre um preso, condenado a 29 anos de cadeia, o Velho Monarca. Com a descrição, descobriram que ele era tio de Sabotage. “A mesma idade que eu tenho aqui [29 anos], ele vai passar lá [na cadeia]”, lembra o rapper. Contato estabelecido, ficou determinado que o artista interpretaria o personagem Fuinha, além de cuidar de músicas para a trilha sonora do filme e do making of . E a parceria com Babenco foi além, gerando, inclusive, uma música. “Imagina ele falando pra mim ‘águas turvas’, com aquele espanhol! Pra pôr isso numa rima foi foda, mas ficou muito classe!.” Em Carandiru, Sabotage também voltou a atuar como consultor técnico. Foi ele quem conseguiu os figurantes para as cenas que exigiam um número grande de pessoas.

Morte

Era manhã do dia 24 de janeiro de 2003, na altura do número 1800 da avenida Abrão de Morais, no bairro Saúde, perto de sua casa, Zona Sul de São Paulo, quando Sabotage levou sua mulher, Maria Dalva da Rocha Viana, ao ponto de ônibus. Na despedida, disse à esposa que iria para o Fórum Social Mundial de 2003, em Porto Alegre. Após entrar no carro, segundo testemunhas, foi abordado por um traficante que disparou quatro vezes. Sabotage foi atingido com dois tiros na coluna vertebral, enquanto os outros dois atingiram sua mandíbula e sua cabeça. O rapper foi encontrado ao lado de seu carro, às 5h50. Ao seu lado foi encontrada uma máscara preta. Ele chegou a ser reanimado por 30 minutos no Hospital São Paulo, mas, devido ao estado considerado gravíssimo, não resistiu. Especulações sobre o assassinato apontam várias causas. Entre elas, o envolvimento do rapper com o mundo do crime como uma possível razão para o ocorrido. Seus amigos e familiares, no entanto, não concordam com essa hipótese, visto que Sabotage desistiu da bandidagem 10 anos antes de sua morte. O enterro ocorreu no dia 25 de janeiro de 2003, onde a esposa do rapper, Dalva, não permitiu a entrada da imprensa.

Discografia:

Álbuns de estúdio

* 1997 – Supervisionando a Sociedade
* 2001 – Rap É Compromisso!
* 2016 – Sabotage

Coletâneas

* 2002 – Trilha sonora do filme “O Invasor”
* 2008 – Rap É o Hino Que me Mantém Vivo
* 2009 – Uma Luz que Nunca Irá se Apagar

Parcerias

* “TI, TI, TI” e “DJ Cia” (com RZO)
* “Black Steel in the Hour of Chaos” (cover de Public Enemy) (com Sepultura)
* “Cantando Pro Santo” (com Charlie Brown Jr.)
* “Dorobo” (com BNegão)
* “Enxame” (com SP Funk)
* “Marginal Alado” (com Charlie Brown Jr.)
* “Nem Tudo Está Perdido” (com Rappin’ Hood)
* “O Livro” (com Ronnald Rap)
* “Vira Lata Sa” (com Di Função)
* “A Banca” (com RZO e Charlie Brown Jr.)
* “Um bom lugar” (com Black Alien)
* “Cabeça de Nego” (com Instituto)
* “Dama Tereza” (com Instituto)
* A boa
* Errar é humano

Filmes

* 2002 – O Invasor
* 2003 – Carandiru

Prêmios

* 2002 Prêmio Hutúz Revelação
* 2002 Prêmio Hutúz Personalidade do Ano
* 2009 Prêmio Hutúz Maiores revelações da década
* 2009 Prêmio Hutúz Maiores artistas solo da década

Documentários

* Sabotage – Nós (Documentário): retrata a caminhada do ‘Maestro do Canão‘ em direção ao seu disco de estreia, ‘Rap é Compromisso’, apresentando a perspectiva dos produtores, amigos e colaboradores que participaram ativamente do trabalho. Em paralelo, é contada a história da ‘Família RZO’ e do momento áureo do rap nacional ao final dos anos 90. O documentário é intercalado por cenas dos filhos de Mauro Mateus dos Santos, Wanderson “Sabotinha” e Tamires, mostrando o cotidiano da Favela do Boqueirão, onde moram e onde viveu Sabotage, após sua saída do Canão.
* Sabotage: O Maestro do canão: dirigido por Ivan13p e produzido por Denis Feijão e Ivan13p. O documentário que reúne depoimentos de amigos e familiares, teve sua Pré-estréia no dia 23 de janeiro de 2015 e entrou em exibição nos cinemas no dia 5 de Março de 2015.

Sabotage foi certamente um dos maiores rappers de todos os tempos e ficará eternizado com seus raps autênticos e criativos e com um carisma inigualável. Foi dele uma das frases mais famosas do Rap Nacional: O Rap é compromisso, não é viagem”.

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